À flor da pele
Memórias do quintal da minha avó se misturam à leitura de "A Vegetariana" e à urgência da COP 30, revelando como a vida só quer florescer.

Meu primeiro playground foi o quintal da minha vó.
Eu pequena, ele imenso.
À esquerda, as videiras de uvas e chuchu se entrelaçavam.
Mais adiante, galinhas remexiam a terra, impacientes, em busca de alimento.
Embaixo das videiras, capim-cidreira e hortelã se espreguiçavam.
O cheiro parecia brotar da própria terra.
Um caminho de flores e cores me conduzia para mais fundo naquele espaço verde.
Um pé de marmelo, que provia as varas que castigavam crianças num tempo muito antes do meu, crescia perto do canteiro de temperos, com salsinha e cebolinha…
Logo em frente, um pé de mexerica e outro de laranja saúde, aguada e insossa, mas a favorita do meu avô doente.
Por ali crescia solto o pé de limão capeta, forte que só.
A casca cheia de crostinhas brancas, o laranja saltando do pé, o cheiro ardendo os olhos — e sementes aos montes anunciava: o capeta não vinha sozinho.
O meu primeiro playground era também a minha escola.
Ali, aprendia sobre os sabores do mundo.
O que Clarice Lispector chamou de “linha sub-reptícia” o espaço entre uma coisa e outra. A ideia de que nada é um fato isolado e puro.
O pé de jiló doce, que eu alcançava sem esforço, me mostrava a multitude da vida.
O espaço entre o amargo e o doce.
A unicidade exótica que eu comia de colher.
Meu paraíso particular era no alto do pé de serigüela.
Ali eu encontrava algum tipo de solitude que me alegrava.
Talvez fosse o escalar dos troncos firmes e grossos.
As folhinhas arrumadas em ramas longas.
Os frutos tão temporais que chegavam a ser detalhes.
Se chegasse antes dos passarinhos, talvez os encontrasse verdes demais.
Os fiéis membros da natureza sabiam chegar na hora certa.
Raro era achar a fruta pronta sem um pedaço já arrancado por outro ser mais arisco que a gente.
Mary Oliver (“Devotions”) em When I Am Among the Trees disse: “I would almost say that they save me, and daily.” Aquele pé de serigüela era exatamente assim pra mim: um espaço sagrado, escondido junto ao muro, de onde eu enxergava o quintal da Dona Gilda e um mundo inteiro além dele.
O limite entre o quintal dela e o da vizinha separados por um muro.
Na parte de trás do terreno, um chiqueiro com porcos e uma cerca de madeira abria caminho para uma área que eu raramente ousava explorar.
Talvez pela lembrança mórbida que a minha mãe compartilhou comigo. É que o meu tio, na infância, enterrava os passarinhos que matava com estilingue. Certo dia ela se deparou com dezenas de cruzinhas que indicavam: aqui jaz uma vida que voava.
As crianças também aprendem a ser cruéis.
O fluxo do córrego Aareão desenhava o fim do terreno.
Mas para a natureza era tudo uma coisa só, ela é indiferente às fronteiras humanas.
Como numa metáfora cruel da vida, o quintal da minha avó já não é mais o mesmo.
Foi devorado pelo crescimento desordenado da cidade, que avançou além da medida, arrasando a natureza ao redor.
Duas enchentes devastadoras lavaram o terreno e alguns sonhos, mas não as minhas memórias.

Gosto de pensar que não foram as águas que levaram embora as ervas, as flores, as árvores. As águas, como na oração de Oxum, seguem desbravadoras, correndo pelos rios, cortando pedras, precipitando-se nas cachoeiras, sem jamais poder voltar atrás — apenas seguindo seu caminho.
Foi o homem e seu (des)envolvimento, alheio à verdade de que a Terra é sua única casa.
Hoje vejo o quintal da minha avó menor.
Será que fui eu que cresci?
Uma coisa é certa: a vida sempre quer florescer, e meu querido pé de seriguela ainda sobrevive. (Perdeu a trema, não perdeu a força.)
Outro dia meu irmão, que hoje mora na casa da minha vó, compartilhou essa beleza comigo:

Ressuscitar essas memórias me traz uma melancolia doce, um desejo infantil de que algumas coisas permanecessem como eram:
os quintais que alimentavam uma família inteira,
os ovos das galinhas, e às vezes suas próprias carnes, virando sustento,
os porcos que meu avô matava no fundo do quintal,
as frutas, os vegetais e as ervas que minha avó cultivava.
Tudo ali era alimento.
O início da COP 30, junto à leitura deste mês do nosso clube do livro — “The Vegetarian” (“AVegetariana”), da sul-coreana Han Kang — trouxe essas memórias à flor da pele.”
Na obra, a vencedora do Nobel de Literatura apresenta uma cena em que o cunhado de Yeonghye, a personagem principal, um artista plástico, a observa com fascínio e uma tentativa de capturar algo primitivo e orgânico:
“Foi nesse instante que lhe veio a imagem de uma flor azul-esverdeada, da cor do mar, saindo do meio das nádegas de uma mulher. (...) Inexplicavelmente, ele associa a informação à ideia de homens e mulheres, com flores pintadas pelo corpo, copulando, formando em sua câmera uma clara relação de causa e efeito.”
Han Kang, em sua ousadia, nos mostra através de Yeonghye que somos natureza — e leva essa ideia ao extremo. Será que, na loucura, as pessoas entendem?
“Preciso me encharcar de água. Não preciso de comida, mana. Só de água…”
Ela queria de fato ser um vegetal.
Vegetal, do latim Vegetus: cheio de vida, vigoroso, animado.
Não deveríamos todos desejar viver assim, inteiros, vivos em cada fibra, conectados àquilo que nos sustenta?
♻️ FULL CIRCLE
💭 REMINISCE: Já que falei de memórias à flor da pele, segue um registro histórico da minha cidade. Municipal farmers market, 1996, Capelinha, Vale do Jequitinhonha, Brazil. Often misrepresented as “Vale da Fome” (Valley of Hunger), Jequitinhonha is actually Vale da Fartura (Valley of Abundance) — as this footage proves. Back then, the weekly market was the heart of community life, where locals gathered to buy fresh produce directly from small farmers. O zoom nos alimentos mostra quando a feira era saúde, não apenas saudade.
Para os corações dos Capelinhenses Ausentes, presentes em espírito.
🎞️ WATCH: Se no vídeo anterior vimos o Vale da Fartura em 1996, o documentário “Por trás da Cortina Verde” (Behind the Green Curtain), directed by Caio Silva Ferraz and Paulo Plá, mostra o que aconteceu quando essa abundância foi ameaçada. Desde a década de 1970, a monocultura do eucalipto tem degradado o Alto Vale do Jequitinhonha, transformando terras férteis e comunidades prósperas. Narrated by the family farmers themselves, this is a glimpse into a harsh reality — and a reminder that the abundance that fed entire families didn’t disappear on its own, it was taken.
🤓 READ: Do eucalipto ao lítio: the threats to Vale do Jequitinhonha keep evolving. My friend Amanda Magnani investigated how lithium mining is now impacting communities in Araçuaí — explosions crack homes, water disappears, and the fartura we saw in 1996 becomes increasingly distant. But residents are organizing and have a blueprint for change.
Stay curious and courageous,
Ana Clara Otoni 💛




